A pós-verdade de Trump e Maduro

Se a realidade é complexa demais, a narrativa resolve: escolhe um lado, aponta o vilão e segue o baile sem precisar pensar muito

Já ouviu falar em pós-verdade? Basicamente é o seguinte: dane-se a verdade. O que importa é como as emoções, as crenças pessoais e os alinhamentos ideológicos definem o que cada um sente como verdade.
Existe um erro confortável que a pós-verdade adora vender: o de que, diante de um vilão evidente, qualquer ação contra ele se torna automaticamente justa.
A Venezuela virou esse palco perfeito. De um lado, Nicolás Maduro, um governante autoritário, com eleições questionadas, repressão documentada e uma crise humanitária real.
Do outro, Donald Trump, que se apresenta como alguém disposto a "resolver" o problema com força, rapidez e sem rodeios.
E é nesse atalho moral que a pós-verdade prospera.
O truque da falsa escolha
A narrativa simplificada empurra o leitor para um dilema artificial:
Ou você condena Maduro ou você critica Trump. Se você tenta fazer os dois, vira suspeito. E se você não entende direito o que tá acontecendo, você é taxado como burro ou isentão.
Esse é o mecanismo clássico da pós-verdade: transformar análise em teste de lealdade. O mundo deixa de ser complexo e passa a funcionar de forma binária como um jogo de luz e sombra que apaga os tons de cinza.
O fato incômodo: vilões não legitimam atalhos
Além de ser certo condenar Maduro, é fácil. O difícil é sustentar que isso autoriza automaticamente uma potência estrangeira a invadir um país soberano ou capturar seu chefe de Estado.
No direito internacional, isso não é detalhe técnico. É pilar. Mas quando se aceita a lógica de que "se é ditador, pode invadir" abre-se um precedente que não para na Venezuela.
A mesma justificativa pode ser usada por qualquer potência, contra qualquer país, desde que a narrativa moral seja bem vendida.
Exemplos históricos reforçam esse risco: o golpe no Chile em 1973, a invasão do Panamá em 1989 ou a intervenção no Iraque em 2003 mostram como justificativas morais podem ser usadas para legitimar força bruta.
A ordem internacional não sobrevive a exceções morais seletivas.
Calma, segura a ansiedade
Eu sei que você já está com a cabeça fervendo de vontade de colocar um "mas" no que você está lendo. Te peço paciência pra ler até o fim.
A diferença entre justiça e catarse
A gente tende a confundir, e a comprar, narrativas perigosas sobre justiça e alívio emocional.
Ver um ditador cair pode gerar sensação de justiça imediata. Mas decisões internacionais não podem ser tomadas com base em catarse.
Intervenções "salvadoras" quase nunca fortalecem instituições locais e invariavelmente cobram seu preço da população. A América Latina conhece bem esse roteiro e continua pagando por ele.
Trump não é árbitro moral
Outro ponto que a pós-verdade costuma apagar é simples: quem está agindo.
Trump não opera a partir de princípios universais, mas de cálculo político interno, demonstração de força e construção de narrativa de poder.
Isso não transforma Maduro em vítima, apenas impede que Trump seja tratado como herói.
E aqui surgem os argumentos.
- De um lado: "Alguém precisa intervir na Venezuela porque é um narcoestado e precisa ser controlado."
- Do outro: "Trump, ao invadir a Venezuela, está agredindo a soberania de um país."
As duas leituras têm fundamento, porque o mundo real comporta ambiguidade. A pós-verdade, não.
O problema maior: quando a força substitui a regra
A pergunta central não é apenas "Maduro merece cair?". As que vêm depois são mais incômodas: quem decide? Como essa decisão é tomada? E com que legitimidade?
Quando a força passa a valer mais que regras, tratados e mediações, o sistema deixa de proteger os fracos e passa a servir apenas aos mais fortes.
Hoje o alvo é um regime autoritário. Amanhã pode ser qualquer governo inconveniente.
A pós-verdade também é um produto pronto. Ela nasce formatada para virar narrativa: simples, emocional, binária e facilmente empacotável.
Funciona perfeitamente para portais de notícia, redes sociais e debates apressados, porque dispensa nuance e recompensa engajamento. Só não entrega compreensão, muito menos justiça.
É possível sustentar, ao mesmo tempo, que Maduro governa de forma autoritária, que a Venezuela vive uma tragédia real e que Trump não tem legitimidade para agir como xerife global.
Nosso papel é não cair na pós-verdade pra não agir como massa de manobra e estarmos atentos a esse tipo de manipulação.
Saiba disso
Maduro está certo e está errado. Trump está certo e está errado. Sim, isso é possível.
A pós-verdade nos obriga a escolher lados; a realidade nos obriga a pensar. E tudo bem não entender completamente: a complexidade é parte da verdade.


