Ex-primeira-dama da Coreia do Sul é condenada por corrupção

29/01/2026

Kim Keon-hee recebe 20 meses de prisão após saída do marido do poder; decisão encerra capítulo central da crise política de 2024

Um tribunal sul-coreano condenou nesta terça-feira (28) a ex-primeira-dama Kim Keon-hee a 20 meses de prisão por corrupção, no desfecho de um dos casos mais sensíveis da maior crise política recente do país.

A sentença vem semanas depois da prisão do marido, o ex-presidente Yoon Suk-yeol, destituído após decretar lei marcial no fim de 2024.

O juiz Woo In-sung, do Tribunal do Distrito Central de Seul, afirmou que a ex-primeira-dama abusou da posição para obter vantagens indevidas.

Kim, de 53 anos, foi absolvida das acusações de manipulação do mercado de ações e de violação das leis de financiamento eleitoral.

A decisão tem peso histórico: sela judicialmente uma derrota simbólica do casal presidencial e aumenta o trauma institucional provocado pela breve lei marcial, que acelerou a queda de Yoon e expôs rupturas entre Executivo, Judiciário e Parlamento.

O que levou à condenação

A acusação sustentou que Kim recebeu cerca de 170 mil euros (R$ 930 mil) em subornos de empresários e políticos, além de presentes de alto valor ligados à Igreja da Unificação, conhecida como seita Moon.

Para os promotores, houve troca de favores e influência indevida no entorno do poder.

Em dezembro, a promotoria afirmou que a ex-primeira-dama "se colocou acima da lei" e colaborou com interesses religiosos, em violação ao princípio constitucional da separação entre Estado e religião. A defesa negou irregularidades e pediu absolvição total.

Apesar da condenação por corrupção, o tribunal rejeitou os crimes mais graves apontados pela acusação como manipulação do mercado e interferência eleitoral, que poderiam levar a penas muito maiores. O Ministério Público havia pedido 15 anos de prisão.

Ao final do julgamento, Kim se declarou inocente, classificou as acusações como "profundamente injustas" e pediu desculpas "por ter causado problemas". Reconheceu, porém, "muitos erros" no exercício do papel público.

O pano de fundo: a lei marcial e a queda do presidente

Os escândalos envolvendo Kim marcaram toda a presidência de Yoon. Em 2024, ele vetou três tentativas do Parlamento de abrir investigação contra a esposa.

O último veto ocorreu uma semana antes de decretar a lei marcial, medida que precipitou a destituição e prisão.

Yoon aguarda a conclusão de vários processos, um deles com possibilidade de pena de morte, segundo a legislação local para crimes extremos contra a ordem constitucional.

O veredito contra Kim fecha uma semana especialmente dura para os antigos gestores do país asiático.

O ex-primeiro-ministro Han Duck-soo foi condenado a 23 anos de prisão por cumplicidade no episódio da lei marcial, oito anos acima do pedido da acusação.

As investigações também levaram à prisão de Han Hak-ja, líder da Igreja da Unificação, organização que afirma ter milhões de seguidores e controla uma espécie de império econômico.