Irã em ponto de ruptura

20/01/2026

Ainda que o regime islâmico esmague sua própria população, o único caminho é seguir em frente.

Pouco se sabe sobre o que está acontecendo neste momento no Irã. A única certeza é que, apesar da violência sem limites do regime islâmico contra sua própria população, da situação crítica da economia do país e da promessa ainda não cumprida de ataque de Donald Trump, não há como voltar atrás.

O único caminho é seguir em frente. O governo já não consegue oferecer sequer as condições mínimas de vida à sua população, diante de uma crise econômica, hídrica, elétrica e institucional sem precedentes. Mas a ruptura é mais profunda. Os iranianos estão sendo submetidos ao pior massacre já ocorrido na história moderna do país.

No dia 8 de janeiro, o regime dos aiatolás construiu um "coliseu" em sua praça central, com muros formados pelo corte da internet e da rede internacional de telefonia. Na arena, os iranianos passaram a enfrentar feras sobre jipes portando metralhadoras automáticas e integrantes de milícias islâmicas trazidos do Afeganistão e do Iraque — algumas fontes citam também do Hezbollah —, armados com fuzis de alto calibre.

O resultado da violência desmedida

Dias atrás, as grandes cidades, como Teerã e Shiraz, passaram a viver sob toque de recolher. A medida entra em vigor diariamente às 18h: depois desse horário, a ordem de atirar é executada contra qualquer um que esteja na rua. Ao longo desse período, o presidente do Irã tem repetido que os protestos são liderados por terroristas que atuam em nome dos Estados Unidos e de Israel, e promete que também os manifestantes presos serão mortos.

O Irã já figurava entre os países líderes em execução de presos, por enforcamento ou fuzilamento. Em 2025, um ano sem protestos, foram mais de 2 mil execuções, segundo números oficiais. Desde o fim do mês passado, porém, o cenário se agravou drasticamente: ONGs iranianas sediadas em países europeus reportam mais de 50 mil pessoas assassinadas, quase 400 mil presas e 330 mil feridas.

O aguardado ataque dos EUA

As ameaças de ataque de Donald Trump surgiram nos primeiros dias das manifestações, quando o regime ainda não havia aberto de vez a porta do inferno. O massacre se intensificou em 8 e 9 de janeiro e prossegue até hoje — somente naqueles dois dias, estima-se que 12 mil pessoas foram mortas.

Na semana passada, o presidente norte-americano deu sinais claros de que o momento tão esperado havia chegado. O Irã entrou imediatamente em estado de alerta: o filho do líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, enviou uma fortuna para bancos no exterior; líderes do regime se esconderam em seus bunkers; a Guarda Revolucionária e o exército prepararam suas defesas.

Nada aconteceu. Ao menos não de forma visível. Israel e os Estados Unidos limitaram-se a observar atentamente todos esses movimentos, buscando compreender as rotinas de segurança do regime diante de um ataque iminente.

Desde então, muitos afirmam que os Estados Unidos não realizarão, afinal, um ataque cinético, sob o argumento de que teriam perdido o "momentum". Esse debate ocorre enquanto, em paralelo, os cidadãos iranianos fazem um esforço sobre-humano para mantê-lo, entregando suas vidas ao permanecer nas ruas clamando por liberdade. Quem não suporta mais a situação — e tem condições para isso — foge por terra, já que o aeroporto internacional está inoperante. Milhares chegam às passagens fronteiriças da Turquia, do Azerbaijão e da Armênia.

Cortina de silêncio

Tudo isso dito, não acredito que Benjamin Netanyahu ou Donald Trump tenham encerrado esse capítulo da guerra contra o Irã. Aprendi, nesses últimos dois anos e meio de conflito, que as cortinas de silêncio — como a que sentimos aqui tão claramente nestes dias — no Oriente Médio costumam ser um dos sinais mais claros de que um novo furacão se aproxima.

Trump já provou ser um "presidente de ação", como seu secretário de Estado, Marco Rubio, gosta de descrevê-lo, e prometeu um ataque. Benjamin Netanyahu, por sua vez, tem uma conta em aberto com o aiatolá Ali Khamenei: a destruição do programa balístico com o qual o regime promete destruir Israel.

Já os iranianos merecem uma oportunidade de retirar sua nação do jugo de uma ditadura que se mantém desde 1979 à base de repressão, de uma pretensa ideologia religiosa e de corrupção desmedida. Espero não estar errada na minha esperança de que essa oportunidade virá — e, então, veremos, muito provavelmente, o mapa do Irã ser redesenhado para atender às suas diferentes tribos.

A nós, espectadores chocados dessa arena sanguinária, resta torcer por um futuro mais brilhante para o valente povo iraniano.