Médicos são denunciados por esquema de “fura fila” em bariátricas

27/03/2026

Profissionais atuantes no HC da Unicamp são acusados pelo MP de liderarem esquema ilegal no SUS para beneficiar pacientes de uma empresa

O Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP) denunciou dois médicos do Hospital das Clínicas (HC) da Unicamp , localizado em Campinas, cidade do estado de São Paulo, por liderarem um esquema que possibilitava pacientes de uma empresas a "furar a fila" do Sistema Único de Saúde (SUS) no processo para cirurgias bariátricas.

Na denúncia à Justiça, protocolada nesta terça-feira (24), o órgão estadual apontou que a entidade privada segue em contrato com prefeituras, entre elas a de Indaiatuba (SP), para atendimento de casos de obesidade. Não foi informado o período em que as irregularidades aconteceram.

Um dos acusados, é Felipe David Mendonça Chaim, quem além de servidor, também é sócio-proprietário da empresa que atendia os pacientes nas cidades.

O outro suspeito é Elinton Adami Chaim, pai de Felipe, que era chefe do ambulatório de obesidade do HC da Unicamp e responsável pelo agendamento de cirurgias no local. O médico teria viabilizado "encaixes" dos pacientes da empresa do filho no hospital público.

O MP solicitou o bloqueio de R$ 1,4 milhão dos investigados, alegando que o valor seja do enriquecimento ilícito das operações do "fura fila". O órgão ainda pediu que eles sejam afastados e posteriormente demitidos.

Posicionamento das partes

A Unicamp declarou em nota que instaurou dois processos administrativos disciplinares para apurar as supostas irregularidades. As apurações já foram concluídas. Felipe foi suspenso por 10 dias e Elinton foi absolvido.

A defesa dos suspeitos, informou que ainda não tem conhecimento da denúncia e negou que os clientes tenham dado prioridade em encaminhamentos, destacando que os pacientes da entidade eram preparados para serem cadastrados na fila.

A Prefeitura de Indaiatuba se posicionou dizendo que não mantém mais contrato com a empresa e que durante o tempo de serviço contratual, não foram encontradas irregularidades. A Secretaria de Saúde informou que está a disposição para eventuais esclarecimentos.

Encaminhamento sem parceria

A empresa denunciada pelo MP é a CHM Serviços Médicos Ltda, cujos donos eram Felipe e sua esposa. O negócio mantinha convênios com prefeituras para prestar atendimento a pacientes com quadro de obesidade.

O que chamou atenção do MP foi o vínculo com Indaiatuba que tinha "claras evidências de irregularidades", segundo o promotor Daniel Zulian. A parceria foi de 2015 a 2025.

No acompanhamento multidisciplinar do paciente, se ele apresentasse 10% de perda do peso corporal, era encaminhado diretamente para o ambulatório de obesidade da Unicamp para fazer a cirurgia bariátrica. No entanto, a cidade não tinha nenhum vínculo ou parceria com a universidade.

Os pacientes conseguiam o "encaixe" porque o pai de Felipe trabalhava lá e permitia o atendimento privilegiado e viabilizava a cirurgia dos encaminhados pela empresa do filho.

Como funciona o encaminhamento no SUS para cirurgia bariátrica?

  • - Após atendimento na rede pública, o paciente que precisa de intervenção cirúrgica é cadastrado em uma fila do procedimento que ele precisa. No caso, as pessoas seriam colocadas na fila da cirurgia bariátrica;
  • - Se nesse cadastro o médico indica que o caso demanda urgência, o paciente recebe prioridade;
  • - Se o caso é apenas ambulatorial (sem urgência), a realização da cirurgia pode demorar, já que passaria a depender da disponibilidade de leitos, de médicos e até mesmo do tamanho e do "andamento" da fila.

Esse processo é administrado pela Central de Regulação de Ofertas de Serviços de Saúde (Cross).

O esquema feito pelos médicos possibilitava que os pacientes da empresa "furassem a fila" do SUS, usando o HC da Unicamp como caminho. Sendo que o correto, por se tratar de um hospital público seria seguir o trâmite de atendimento e respeitar os critérios, sem tratamento privilegiado.

Ao fim do processo, os suspeitos podem:

  • - Serem condenados por improbidade administrativa;
  • - Perder bens bloqueados;
  • - Perder suas funções públicas;
  • - Perder direitos políticos por 14 anos;
  • - Serem obrigados a pagar multa civil a ser calculada;
  • - Serem condenados a pagar R$ 432 mil por danos morais coletivos.

Os pedidos serão analisados pela Justiça.

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