Patriotismo seletivo: quando o Brasil vence, mas a torcida vaia

12/01/2026

Aplauso só vale quando confirma crença própria; vitória nacional vira derrota imaginária na arquibancada ideológica dos ditos patriotas

Quando o cinema brasileiro vence lá fora, o discurso deveria ser simples: o Brasil ganhou. Mas não é. No ano passado, Ainda Estou Aqui foi premiado internacionalmente e virou alvo de boicote por setores específicos da direita.

O motivo nunca foi técnico. Não era fotografia, roteiro ou atuação. Era ideológico. O filme "cheirava a esquerda". Vi e ouvi várias pessoas dizendo:

"Não vi e não gostei. Não verei e não gostarei"

Não foi um caso isolado. Agora, em 2026, a cena se repete. O Agente Secreto vence o Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Não Inglesa, e Wagner Moura leva Melhor Ator em Filme Dramático. Reconhecimento global, júri internacional, competição pesada. Mesmo assim, parte do discurso nacionalista reage com desconfiança, ironia ou rejeição.

É aqui que mora a contradição. Esse mesmo campo político se define como patriota, defensor da cultura nacional, crítico do chamado complexo de vira-lata.

Mas, quando uma obra brasileira vence num dos maiores palcos simbólicos do audiovisual mundial, e não carrega a ideologia "certa", o mérito deixa de importar.

O patriotismo, então, vira condicional. Só há festa se o placar ideológico for favorável.

Curiosamente, ninguém questiona se Hollywood é "de esquerda" quando consome seus filmes. Ninguém rejeita um prêmio internacional quando ele valida narrativas conservadoras. No campo, a vitória é festa; na tela, é vaia. A crítica só aparece quando a vitória não confirma a própria bolha.

O paradoxo é evidente: o Brasil só pode ganhar se ganhar do jeito certo. Cinema, arte e cultura sempre carregam visões de mundo. Isso não é defeito, é definição.

Exigir neutralidade estética é o mesmo que pedir silêncio. E rejeitar uma vitória brasileira porque ela não reforça uma identidade ideológica específica é trocar patriotismo por torcida organizada. Uma torcida travestida de bandeira.

A pergunta não é se os filmes são "de esquerda". A pergunta deveria ser se o nacionalismo é sobre o país ou sobre quem controla a narrativa do país. Porque, se o Brasil só merece aplauso quando pensa igual, isso não é amor à pátria.

Esse é o patriotismo seletivo: a pátria só vale quando serve ao discurso. No fundo, não é amor ao país. É medo de perder a narrativa.