Um ano sem celular nas escolas: “Silêncio digital deu lugar ao burburinho humano”

23/03/2026

Mais de um ano após a implementação da lei, escolas identificam melhoras no rendimento dos alunos

A lei que proíbe o uso de celulares nas escolas completou um ano no início de 2026 e já mostra resultados. Após um ano de vigência, a medida transformou o aparelho de "vilão" a aliado pedagógico, zerando retenção em turmas e resgatando socialização entre alunos.

Este é o cenário segundo material divulgado pelo Sindicato das Escolas Particulares do Paraná (Sinepe). Segundo o informativo, o quadro apresenta boletins com médias em ascensão, turmas inteiras sem nenhuma reprovação e um salto na concentração dos alunos, desde a implementação da Lei nº 15.100/2025, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 13 de janeiro, que restringiu o uso recreativo de celulares na educação básica.

No Paraná, uma Instrução Normativa da Secretaria de Estado da Educação (Seed), de outubro de 2025, já restringia o uso dos aparelhos em sala de aula da rede.Para Gil Vicente Moraes, diretor de Ensino Médio do Sinepe/PR, a lei promoveu um resgate do aluno. "O silêncio digital deu lugar ao burburinho humano. Você tinha um isolamento de muitos jovens no intervalo. Hoje, as tradicionais rodinhas de bate-papo voltaram. No primeiro momento, volta até a ter bolinha de papel voando na sala. Melhor a bolinha de papel do que o celular tirando foto o tempo todo", ilustra o educador.

O sucesso da medida não se deu por uma "guerra" à tecnologia, mas pela mudança de status do aparelho. O uso recreativo foi vetado, mas o pedagógico é incentivado. "O celular não foi abolido, e sim utilizado em prol do aluno", explica Moraes.

Atualmente, os aparelhos integram metodologias ativas para pesquisas rápidas e acesso a plataformas. "Há professores que pausam a aula e lançam desafios para que pesquisem na internet", destaca.

Sem distrações

Com o fim da distração, o reflexo nos boletins foi imediato. "Na instituição onde sou diretor, o índice geral de reprovação escolar caiu mais de 70%. Tivemos 170 formandos de 9º ano em 2025, com zero retenção. No 1º ano do Ensino Médio, etapa historicamente sensível, a redução de reprovações ultrapassou 80%. Além disso, a quantidade de estudantes reconhecidos por mérito acadêmico triplicou em algumas turmas", comemora o educador.

O receio de conflitos constantes também diminuiu, com a retenção de aparelhos tornando-se rara. "Houve o entendimento dos próprios estudantes de que o uso excessivo prejudicava a aprendizagem. A ocupação deles hoje é ser estudantes", resume Moraes. A medida também abriu um canal vital de diálogo com as famílias sobre a educação digital e os limites na formação dos jovens.

Dados da Frente Parlamentar Mista da Educação já apontavam a tendência: 83% dos estudantes afirmam prestar mais atenção nas aulas, e 77% dos gestores perceberam redução no cyberbullying. No cotidiano escolar, os resultados são ainda mais visíveis e vão além da disciplina.

Eco

Esse movimento de conscientização, inclusive, já começa a ecoar além da educação básica. Segundo o diretor, há um movimento crescente de instituições de ensino superior adotando restrições semelhantes.

"No começo deste ano, pelo menos cinco ou seis universidades já sinalizaram que o uso livre de celulares na sala de aula não será mais permitido", revela. Para Moraes, essa expansão consolida um caminho sem volta.

Escolas estaduais promovem intervalos dançantes e coloridos, além de jogos, livros e até crochê

O efeito da proibição do uso de celulares nas escolas estaduais também foi sentido de forma positiva. No "aniversário" de seis meses da entrada em vigor a lei, a Secretaria de Estado da Educação do Paraná (Seed-PR) divulgou reflexos da medida.

"Defendemos o uso do aparelho para fins pedagógicos, sempre sob a supervisão do professor, e percebendo o quanto a rotina das nossas escolas está mudando sem a utilização para fins recreativos. Estamos felizes com a medida" disse o o secretário de Estado da Educação, Roni Miranda na época.

A matéria da Seed também mostrou como a medida influiu em ações que uniram a comunidade escolar. Havia exemplos de escolas que promoviam intervalos dançantes, jogos e livros de colorir, brincadeiras interativas, algumas antigas do tempo dos pais dos alunos.

Cantos de leitura também se espalharam pelas escolas do Paraná. Tem até aqueles que reuniram grupos para aulas de crochê na hora do recreio.

Mais do que jogar, dançar, brincar, ler ou fazer trabalhos manuais, a ausência do celular dentro das escolas trouxe alguns componentes que andavam fora de moda entre os alunos: as relações interpessoais, o olho no olho, a concentração e, como consequência, a melhor aprendizagem.

"Nenhuma mudança é fácil e contamos também com a parceria das famílias", reiterou o secretário Roni Miranda. "É preciso alertar sempre que o celular pode e deve ser usado somente como ferramenta de estratégia pedagógica e que a interação com os colegas é fundamental no recreio, até como ponto de equilíbrio para resguardar a saúde mental dos estudantes".

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