Vorcaro bancou o luxo até de juízes. Quem julgará o patrocinador?

Banqueiro distribui R$ 60 milhões em patrocíno sincero e desinteressado para mimar políticos e ministros das cortes superiores em Londres, NY e Lisboa

Existem muitas maneiras de corromper alguém em qualquer lugar do mundo.
Uma delas é descobrir o preço da pessoa, botar dinheiro em uma mala e arriscar ser pego no caminho para proteger um interesse específico. Esse é o modelo clássico. Vale para ver um projeto passar em Brasília e vale (numa versão sem mala) para quem quer se ver livre da multa pela infração de trânsito.
Há outras, mais sutis. Por exemplo, patrocinar eventos, como fóruns e seminários, sobre um tema aleatório. Não aqui, no Anhembi, ou na sala de alguma universidade. Mas longe, de preferência em Londres, Nova York ou Lisboa. Não em qualquer lugar, mas nos endereços mais caros das capitais mais caras do Planeta.
Ali, convidados da classe política e jurídica são disputados por empresários que nem sempre têm acesso a seus gabinetes. Ninguém está lá para ouvir o que as estrelas têm a dizer no palco, e sim nos corredores onde todo mundo tem acesso a todo mundo.
Tal aproximação só acontece porque tem gente patrocinando o encontro. Engana-se quem pensa que o interesse é ser visto por stakeholders atentos ao apoiadores master.
É preciso cuidar do deslocamento, da hospedagem e, claro, das festas. Quem é de família leva as famílias. Quem é da balada, vai para a balada. Sem colocar a mão no bolso, terá acesso a jantares, uísque e até mulheres.
Quando o dinheiro é demais, nem o santo desconfia. Segundo a Folha de S.Paulo, o ex-banqueiro Daniel Vorcaro pagou o equivalente a R$ 60 milhões para financiar, em 2024, eventos internacionais de alto padrão que contavam com a presença de políticos do alto escalão e ministros do STF e do STJ.
Em Londres, por exemplo, Vorcaro pagou a locação da área da conferência (um hotel de luxo), salas de reuniões e acomodações para 70 pessoas.
Teve noite de homenagem em um museu com distribuição de troféus de cristal. O ex-presidente Michel Temer ficou com um deles.
Ao menos três ministros do STF estavam lá e deixaram uma pergunta na passagem de volta: agora que todo mundo sabe das fraudes do banqueiro, como eles vão julgar o patrocinador, hoster e amigo?
Como vão referendar a possível delação sobre como é colocar metade da República na mão com alguma ousadia e muitos milhões?
Tem razão o presidente do STF, Edson Fachin, em sugerir a criação de uma cartilha que diga aos viajantes o que pode ou não aceitar de terceiros quando se veste uma toga. É preciso acabar com a pornografia que acontece nos corredores de encontros do tipo noticiados como grandes contribuições para o pensamento jurídico brasileiro.
O que acontece nos quartos das festas com pessoas contratadas para entreter os convidados pouco importa. Importa saber quem pagou o que e para quê.


