Cientistas tentam “recongelar” o Ártico para salvar a região

18/06/2026

Teste em uma cidade do norte do Canadá aumentou em até 32 centímetros a espessura da camada de gelo durante o inverno polar

O derretimento rápido do gelo no Ártico levou cientistas a testar uma técnica para aumentar a grossura da camada que cobre parte do Oceano Ártico, no território Nunavut, no norte do Canadá.

No inverno, quando as temperaturas são abaixo de zero, os cientistas da Real Ice e do Centre for Climate Repair jogaram água do mar, que está embaixo da camada de gelo, para a superfície.

"Durante a campanha de campo de 2024/25 em Cambridge Bay, Nunavut, testamos se o bombeamento de água do mar para o gelo marinho do Ártico durante o inverno poderia aumentar a espessura do gelo e melhorar a resiliência na estação de degelo." Equipe da Real Ice

Ao entrar em contato com o ar extremamente frio , essa água congela rapidamente e forma uma nova camada de gelo.

Essas áreas ficaram até 32 centímetros mais espessas do que as que não foram tocadas. Segundo os cientistas, isso é igual à perda registrada ao longo dos últimos 50 anos.

Além de ficarem mais grossas, as áreas tratadas com a água do mar ficam de 20% a 40% mais claras durante o período de degelo, o que pode ter ajudado a diminuir a velocidade do derretimento, já que assim refletem mais luz solar.

O que mostrou o experimento

Depois dessas primeiras conclusões, os pesquisadores agora querem saber se esse reforço pode ajudar a desacelerar a perda de gelo das últimas décadas. O estudo foi o primeiro teste feito em condições reais durante todo o ciclo anual do gelo, desde o crescimento no inverno até o derretimento no verão.

Assim, os resultados são as primeiras evidências obtidas em campo de que a técnica pode mudar o ciclo do gelo ao longo das estações do ano. Até então, esse tipo de efeito só foi observado em testes feitos por computador.

As próximas pesquisas devem examinar por que o gelo tratado ficou mais claro, medir melhor a capacidade de refletir a luz e saber se essa técnica causa impactos ambientais.

Outro ponto que os cientistas também querem entender é se o método poderia funcionar em outras regiões do Ártico e em áreas muito maiores.

A pesquisa ainda destaca que o inverno em que os experimentos foram feitos, de 2024-2025, foi o terceiro mais quente já registrado na região de Cambridge Bay, cerca de 4°C acima da média histórica, o que torna os resultados ainda mais importantes para entender como funciona o ciclo gelo no cenário de aquecimento climático.

Novos vão acontecer até 2028

Essa pesquisa faz parte do projeto Re-thickening Arctic Sea Ice (RASI), ligado à Universidade de Cambridge. A iniciativa recebeu financiamento de 9,9 milhões de libras esterlinas (cerca de R$ 67,4 milhões).

Os novos testes devem acontecer entre 2026 e 2028 em duas regiões de Nunavut. Caso as análises mostrem que a técnica não causa impactos ambientais, as áreas de teste poderão chegar até um quilômetro quadrado.

Além dessas pesquisas no local, os pesquisadores querem usar programas de computador para simular o uso da técnica em lugares estratégicos do Ártico, como o Estreito de Nares, uma passagem natural por onde grandes blocos de gelo seguem em direção ao Oceano Atlântico.

Por que a perda de gelo preocupa

Dados da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) mostram que a quantia de gelo marinho no Ártico ao final do verão tem diminuído desde o início dos registros por satélite, em 1979.

A área coberta por gelo ao fim da temporada de derretimento encolheu, em média, 12,1% por década entre 1979 e 2024. O relatório também aponta que os 18 registros de gelo mais baixos para setembro ocorreram entre 2007 e 2024. 

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