Conheça o ex-boia-fria que virou o melhor pipoqueiro de Curitiba e talvez do Brasil

08/07/2026

Há 24 anos Valdir e sua esposa, Lenice, atendem aos curitibanos na Praça Tiradentes

Se você gosta de pipoca, a Praça Tiradentes, no Centro de Curitiba, é uma parada obrigatória. Há 24 anos, desde o dia 28 de agosto de 2002, ali trabalham quase todos os dias Valdir Novaki e sua esposa, Lenice. Eles são os responsáveis pelo negócio Pipoca do Valdir, um carrinho de pipocas bem diferente daqueles que encontramos por aí, com direito até mesmo a energia solar. E para além da inovação, o negócio se destaca, como não poderia deixar de ser, pelo sabor de suas pipocas, vendidas em dois sabores: salgado (com direito a generosos palitos de bacon) e doce (feita com coco mesmo). 

Por dia, conta Valdir, 25 quilos de pipoca são estourados no carrinho, que atende ao público de segunda a sexta-feira, do meio-dia às 19 horas. A exceção são os dias de chuva, quando o pipoqueiro e sua esposa optam por perder algumas vendas para não arriscar perder algum cliente.

"100% dos clientes voltam. Nunca tive cliente que voltou para reclamar que pegaram pipoca fria, pipoca murcha ou coisa assim. Tanto é que em dia de chuva eu nem trabalho justamente por isso, porque o produto na chuva perde a qualidade, e entre perder a venda e o meu cliente, eu prefiro perder a venda no dia de chuva, mas não vender produto sem qualidade pro meu freguês", afirma Valdir, que vende o pacote grande de pipoca por R$ 20 e o médio, por R$ 15. "Recebemos aqui desde criança de dois aninhos até idosos com mais de 90 anos. Atendemos todo mundo igual", assegura ele.

Trabalho como boia-fria, vinda para Curitiba e o sonho de ser o melhor pipoqueiro

Nascido em São Mateus do Sul, no interior do Paraná, Valdir chegou a trabalhar na juventude como boia-fria. Em busca de melhores condições de trabalho, no entanto, mudou-se para Curitiba em 1989, mesmo ano em que sua esposa, Lenice, deixou São Jerônimo da Serra (no norte do estado) e também veio para a Capital. Os dois, inclusive, se conheceram por aqui. Ele trabalhava como balconista numa banca de revistas e ela, num café que ficava próximo dali. Se conheceram, se gostaram e resolveram constituir família, celebrando a união há 35 anos. Poucos tempo depois veio o primeiro e único filho do casal, Cristian, hoje com 33 anos de idade.

Com família formada, o balconista começou a notar que precisava ganhar mais. Foi quando decidiu investir no seu próprio negócio. "O que eu tirava de balconista na banca não supria minha necessidade, mas fiquei um bom tempo lá. Foram 14 anos guardando dinheiro para fazer o carrinho, comprar todos os utensílios", relata ele, que resolveu investir no ramo da pipoca porque o investimento inicial era menor do que o exigido, por exemplo, para se fazer um carrinho de cachorro-quente. "Eu não fui pro cachorro-quente porque o conceito que eu tinha era que o milho de pipoca era barato, era o que o meu bolso alcançava. Eu não podia ter carrinho de cachorro-quente, demandaria mais investimento."

Tão logo conseguiu, com a Prefeitura de Curitiba, o ponto para montar seu negócio, Valdir largou o emprego e passou a dedicar-se inteiramente ao ofício de pipoqueiro. "Desde quando eu consegui a vaga aqui, fiquei só na pipoca. Desde sempre o meu objetivo não era ser só mais um pipoqueiro no Centro de Curitiba, mas ser o melhor pipoqueiro de Curitiba. Continuo mantendo esse sonho de ser o melhor pipoqueiro de Curitiba e já fui citado várias vezes como o melhor do Brasil. Quando a gente quer, a gente consegue", vangloria-se.

O que faz a pipoca do Valdir ser a melhor da cidade, afinal?

A pergunta inevitável: afinal, o que faz a pipoca vendida por Valdir e Lenice na Praça Tiradentes ser a melhor de Curitiba e talvez do Brasil?

Segundo Valdir, o primeiro ponto é que os insumos usados por eles são de altíssima qualidade. "O bacon que eu uso é o bacon da marca mais top de mercado, que é o bacon Aurora. Eu que corto também, e faço um corte diferenciado, palito, enquanto todos cortam bacon quadrado. Nossa pipoca é doce com coco, que as pessoas não usam, porque acham que o coco gera um custo extra pra pipoca, não notam como um diferencial pra pipoca, para vender mais. Eu uso coco na pipoca. E também uso milho importado, não uso milho nacional", explica ele.

Além disso, o atendimento ao cliente foi outro diferencial. Um exemplo disso: todos os dias o casal trabalha usando um jaleco diferente, específico para cada dia da semana. "Um uniforme pra cada dia, o que demonstra que a gente tem respeito pelo nosso freguês. Enquanto muitos não tem nem um jaleco para usar, eu tenho um para cada dia da semana, e isso para mostrar que eu invisto no meu projeto", afirma o pipoqueiro.

Finalmente, outro diferencial é o próprio carrinho de pipoca. Por mais de uma década Valdir usou o mesmo carrinho, tradicional, igual ao que todos os pipoqueiros usam pela cidade. Para a Copa do Mundo de 2014, disputada no Brasil e com jogos em Curitiba, ele resolveu investir em algo diferente, no entanto. Veio, então, um carrinho todo elétrico, com energia solar e capacidade para fazer os dois sabores de pipoca ao mesmo tempo, enquanto os outros produzem um sabor para depois fazer o outro.

"Estou com esse carrinho desde 2014, fiz ele para a Copa do Mundo. Foi um investimento que eu fiz. Todo mundo me chamava de louco, mas em três meses eu paguei o investimento no carrinho, que foi de R$ 35 mil. Ele é autossuficiente e, além da inovação, tem a praticidade, porque não preciso usar a força física para trazer o carrinho, porque ele é elétrico", afirma o empreendedor.

Negócio em família: "Vou continuar enquanto Deus me der saúde"

Aos 56 anos de idade, Valdir segue trabalhando todos os dias da semana ao lado de sua esposa, que o acompanha desde o início da jornada como pipoqueiro. Depois, por quase 20 anos, o filho do casal, Cristian, passou a ajudar no negócio. Ele, inclusive, foi o primeiro da família a se graduar: formou-se em Administração e fez do negócio da família o objeto de seu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso).

"O Cristian foi o primeiro da família a se formar. Eu estudei só até a quarta série do primário, não tive a oportunidade de ter uma educação formal. Mas eu tenho a escola da vida, né?! Acho que a escola da vida é a melhor universidade que tem", afirma Valdir, que por anos atuou também como palestrante, falando sobre empreendedorismo e inspirando pessoas com suas histórias. "Mas agora já cansei da estrada e tomei a frente do negócio aqui", emenda ele.

A ideia do casal, inclusive, é continuar trabalhando enquanto a saúde permitir. Trata-se de uma questão de amor mesmo. "Vou continuar aqui enquanto Deus me der saúde. Eu gosto de estar aqui, atendendo meus clientes e fazendo pipoca, que é o que escolhi par ter o meu ganha-pão, fazer minha renda. Então, estou muito feliz."

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