Luciano Huck espalha desinformação ao atacar Bolsa Família

26/05/2026

Apresentador quer discutir ineficiência do Brasil usando como exemplo o programa de distribuição de renda mais eficiente (e reconhecido) da atualidade

Dia sim, outro também, o apresentador de TV Luciano Huck acorda de sonhos intranquilos metamorfoseado em salvação para o Brasil.

Por décadas à frente de programas populares, já viajou o país todo, conheceu gente de todo tipo, e tem certeza de que, não fossem as provas de resistência exibidos em rede nacional para testar o quanto uma pessoa merece ou não viver numa casa digna ou circular pela cidade num carro com a lataria em dia, metade da nação hoje viveria abaixo da linha da felicidade.

A pretensão leva o apresentador a testar de quando em quando o próprio nome à sucessão presidencial. Como apresentador bem sucedido, que equilibra audiência com saldo de anúncios e algum propósito social-meritocrático, ele se autodeclara uma espécie de modelo de gestão eficiente. Ou sommelier de gestor. Se funciona numa TV privada, por que não funcionaria na esfera pública?

Porque uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Huck parece não saber disso.

Ele pode estar imbuído das melhores intenções, mas erra feio ao associar a baixa produtividade nacional (um problema das elites locais) a políticas de distribuição de renda (uma solução para os mais pobres).

"O prefeito da cidade de Senhor do Bonfim tem 56% da sua economia no Bolsa Família. O que acontece? Você não gera nenhum tipo de estímulo para que as famílias queiram sair do Bolsa Família. Na verdade, elas criam atalhos para conseguir ficar no programa de distribuição de renda, de proteção social, ad eternum. A gente precisa criar um estímulo. Como é que você motiva a família que precisa, necessita do Bolsa Família, a ter vontade de querer sair desse programa?", questionou Huck em um evento com investidores. 

Huck mostrou apenas que está mal informado. Se não ele saberia que 60,68% dos beneficiários do Bolsa Família em 2014 deixaram o programa até 2025, segundo a FGV.

A porta de saída é ainda maior para os que eram adolescentes em 2014: 68,8% na faixa de 11 e 14 anos (e 71,25% na faixa de 15 e 17 anos).

O que aconteceu neste período é que o recurso recebido pelas famílias ajudou a dinamizar a economia local. Quem não tinha dinheiro para comprar lápis e caderno para estudar agora tem. E estudou. E ajudou a alavancar o comércio de materiais escolares na cidadezinha.

Huck tem um diagnóstico claro, e errado, para apresentar saídas para o Brasil. Um deles é acabar com aquela que é talvez a mais bem sucedida política de transferência de renda que o país já implementou, e que é referência até para a ONU. Tudo em nome da eficiência.

Se quisesse mesmo falar de dependência do Estado e ausência de portas de saída, Huck poderia falar das bolsas para banqueiros e das inúmeras isenções obtidas pelo setor nem sempre produtivo para comprar jatinhos e mandar dinheiro para fora. Mas Huck, educado que é, não quis comprar briga com a plateia. Nem com os chefes. Nem com os patrocinadores. Mais fácil maltratar o grande público – o que ele faz com maestria há muitos anos.

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