Lula rebate tarifas dos EUA e diz que Brasil é quem deveria taxar

Com agenda oficial em Goiás, presidente chamou secretário Marco Rubio de ''anti-América Latina'' e questionou postura da oposição em disputa comercial

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez duras críticas à nova proposta de taxação comercial do governo americano contra produtos brasileiros. Em discurso realizado no Instituto Federal Goiano (IF-GO), em Catalão (GO), no final da manhã desta terça-feira (02), o chefe do Executivo afirmou que, na ótica da soberania e do equilíbrio comercial, caberia ao Brasil aplicar tarifas em defesa do seu mercado, e não o governo dos Estados Unidos.
Lula se manifestou pouco depois das 11h40, em uma agenda pública voltada à educação, mas que acabou sendo dominada pela pauta da política externa.
O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), baseado em uma investigação de quase um ano, propôs a imposição de uma taxa de 25% sobre as importações de produtos do Brasil que entram em solo americano. A chamada investigação da Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 acusa o mercado brasileiro de assumir práticas avaliadas como discriminatórias ou irracionais contra empresas dos EUA.
Críticas diretas
No discurso, o presidente brasileiro elevou o tom sobre a forma como foi conduzida a diplomacia do governo americano. O principal alvo das críticas foi o secretário de Estado de Washington, Marco Rubio, que foi classificado por Lula como uma figura que sempre se mostrou contra aos interesses e desenvolvimento dos países da América Latina.
Segundo o presidente, os motivos nos quais o governo de Donald Trump se baseia para impor travas comerciais são máscaras protecionistas e que prejudicam as relações bilaterais de forma infundada. Além da situação externa, o discurso também ecoou na política interna do Brasil. Lula disse que o grupo que ''trabalha contra o Brasil'' é composto por "falsos patriotas".
O presidente criticou a postura da família Bolsonaro e apontou que o grupo político de oposição adota linha ligada aos interesses dos EUA, em desfavor à indústria brasileira e ao comércio nacional. Para o presidente, a "preservação da economia local é a prioridade brasileira e exige reciprocidade". Ele ressaltou também uma postura de "firmeza nas negociações, em vez de concessões passivas".
Logo após o pronunciamento do presidente, o Palácio do Planalto emitiu nota oficial sobre a sobretaxa do governo de Trump.
Logo após o pronunciamento do presidente, o Palácio do Planalto emitiu nota oficial sobre a sobretaxa do governo de Trump. Seguindo o tom elevado do chefe de Estado, o governo brasileiro destacou indignação na conclusão preliminar do órgão americano e repudiou o que os EUA destacou como "práticas comerciais desleais do Brasil".

O governo federal destaca que o trabalho diplomático e de articulação com o governo de Trump foi sabotado por "interesses meramente eleitorais e familiares". Confira o que diz mais a nota.
"Não havia e não há justificativa para essas medidas unilaterais contra o nosso país ou contra patrimônios brasileiros como o PIX, mencionado explicitamente nas recomendações preliminares. Segundo estatísticas do "Bureau of Economic Analysis", os EUA acumularam US$ 424,5 bilhões em superávit de bens e serviços com o Brasil nos últimos 15 anos (2011-2025). Só no ano passado, o superávit comercial de bens dos EUA com o Brasil totalizou US$ 14,46 bilhões. Considerando bens e serviços a cifra sobe a US$ 40,52 bilhões. Em 2025, 76% das importações originárias dos Estados Unidos entraram no Brasil sem pagar imposto de importação. Oito dos dez principais produtos importados dos Estados Unidos pelo Brasil tiveram tarifa efetiva zero, incluindo petróleo e derivados, aeronaves, gás natural e carvão. A alíquota média efetivamente cobrada dos produtos norte-americanos no Brasil foi de apenas 3,1%. O principal efeito das tarifas unilaterais, politicamente motivadas, aplicadas ao nosso país tem sido impor danos à economia nacional e à geração de emprego e renda, além de diminuir o papel dos EUA como nosso parceiro comercial. No primeiro trimestre de 2026, a participação dos EUA nas exportações brasileiras atingiu o menor valor da série histórica ao somar 9,4%. Conforme acordado pelos Presidentes Lula e Trump por ocasião da reunião em Washington no dia 7 de maio, estão em curso negociações tarifárias entre os dois países em busca de soluções que resultem no encerramento da investigação da Seção 301, previsto para 15 de julho, sem imposição de medidas contra o Brasil. O Governo brasileiro também dará continuidade ao diálogo com o setor privado com esse objetivo". Nota do Palácio do Planalto sobre sobretaxa
O Planalto deixou claro que vai recorrer aos instrumentos legais para fazer justiça e reiterou que vai adotar as medidas necessárias para reduzir quaisquer danos à economia, empregos e à renda dos brasileiros.
O cenário regulatório
A nova medida tarifária dos Estados Unidos para com Brasil é fundamentada conforme relatório do USTR divulgado no final da noite desta segunda. Ele aponta restrições brasileiras ante o comércio digital norte-americano, faz referência a ordens judiciais do Brasil relacionado a retirada de conteúdos em plataformas de tecnologia e redes sociais, e questiona sobre a função regulatória do Banco Central (BC) no sistema do Pix.
Segundo o documento, o governo americano alega também desproporcionalidade no mercado de etanol brasileiro e fazem cobrança ainda em cima da fiscalização do desmatamento ilegal na Amazônia e no Cerrado, levantando a necessidade de mais rigor e trata a questão ambiental interna do Brasil como um fator de concorrência desleal.
Apesar dos EUA prever uma cobrança comercial geral de 25% em cima dos produtos brasileiros, Washington traçou garantias para proteger o abastecimento interno industrial e o consumo da população norte-americana. Em uma lista anexa o governo americano isenta o pagamento de imposto para commodities essenciais nas quais os EUA dependem de outros Países em produtos como café, carne bovina, suco de laranja, cacau e minérios de ferro.
A sanção econômica norte-americana não entrou em vigor. O governo americano abriu uma fase de tratativas jurídicas e de debates técnicos. Esta etapa é aberta para consulta pública e tem audiência presencial em Washington agendada já para o dia 6 de julho de 2026. Até lá, os órgãos brasileiros competentes devem intensificar as tratativas com o país, a fim de reduzir os impactos econômicos antes da batida de martelo definitiva.
Antes da conclusão deste relatório e medida anunciada, o ministro da fazenda Dario Durigan, anunciou nesta segunda que irá viajar nesta primeira semana de junho para tratar juntamente com os EUA, rótulo terroristas às facções criminosas brasileiras e também, possíveis sanções econômicas que classificação pode acarretar.


