Peixe olho-de-barril é filmado pela primeira vez perto do Brasil

Animal com cabeça transparente foi registrado vivo a 710 metros de profundidade em uma missão que também achou fontes de água quente nunca vistas

Um peixe olho-de-barril, também conhecido como peixe fantasma, foi filmado pela primeira vez vivo em seu habitat natural no Oceano Atlântico.
O registro da espécie Winteria telescopa foi feito a 710 metros de profundidade em uma expedição científica de 35 dias pela Zona de Fratura de Doldrums, no meio do Oceano Atlântico, ao norte da linha do Equador e a cerca de 1.300 quilômetros da costa nordeste do Brasil.
O peixe chama a atenção por ter a parte de cima da cabeça transparente e cheia de líquido. Dentro dela ficam seus olhos em formato de tubo, adaptados para enxergar a pouca luz que chega às grandes profundidades. Essa estrutura é muito frágil e costuma se romper quando o animal é retirado da água, o que dificultou seu estudo durante muitos anos.
Essa descoberta mostra por que a exploração ainda importa. Mesmo no Oceano Atlântico, onde os limites entre as placas tectônicas são estudados há décadas, ainda existem lugares onde uma primeira observação mais detalhada pode revelar algo totalmente novo. Essa expedição mostrou que, mesmo em uma das regiões mais remotas do oceano, nosso planeta continua vivo, dinâmico e cheio de surpresas. Aaron Micallef, biólogo marinho do Instituto de Pesquisas do Aquário da Baía de Monterey.

Fontes hidrotermais nunca vistas antes
Durante a expedição, os pesquisadores encontraram duas fontes hidrotermais, que nunca haviam sido registradas. Elas ficam a quase quatro mil metros de profundidade. Esses são os primeiros campos de fontes hidrotermais já descobertos no sistema Doldrums e por perto dessa região.
A zona faz parte de um grande sistema geologicamente ativo que corta a Cordilheira Mesoatlântica, a maior cadeia de montanhas do planeta, formada por montanhas submarinas. Apesar de várias fontes hidrotermais já terem sido encontradas nessa cordilheira, nenhuma tinha sido achada nessa região até agora.
Segundo os cientistas, essas fontes parecem ter sido formadas por um processo chamado serpentinização, que ocorre quando a água do mar reage com minerais presentes nas rochas do fundo do oceano. Essa reação produz hidrogênio, calor e energia química, criando condições para sustentar microrganismos e outras formas de vida mesmo sem luz solar. Poucas fontes hidrotermais conhecidas no mundo são formadas por esse processo, entre elas a famosa Lost City.
As fontes hidrotermais apresentavam grande concentração de vida marinha, com camarões, caranguejos e anêmonas ao redor das aberturas por onde saía água aquecida pelo calor do interior da Terra.
Encontro com lula rara
A expedição também registrou dois encontros com uma lula-de-barbatana-grande, do gênero Magnapinna, a 3.634 metros de profundidade. Esse animal é conhecido pelos tentáculos extremamente longos e finos, que podem medir vários metros de comprimento.
Segundo os pesquisadores, esses tentáculos podem alcançar até oito metros de comprimento.
Os resultados completos da expedição ainda serão publicados em artigos científicos. Mesmo assim, os pesquisadores dizem que a missão ampliou o conhecimento sobre uma das áreas menos exploradas do Oceano Atlântico.
Chegamos procurando por fontes de água quente, falhas geológicas e montanhas submarinas. Partimos com algo ainda mais valioso: uma compreensão mais profunda dos ecossistemas de uma das regiões menos exploradas do Oceano Atlântico. Cada amostra, cada imagem e cada descoberta nos aproxima de entender melhor as partes ainda escondidas do nosso planeta. Paula Zapata Ramirez, cientista marinha da Universidade Pontifícia Bolivariana, na Colômbia.



